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AS NECESSIDADES BÁSICAS DA PARTURIENTE


Algumas condições externas que devem ser respeitadas para o bom procedimento de um parto ativo.
Um parto normal acontece sozinho, guiado pelo próprio corpo. Rompimento da bolsa, dilatações, contrações são ações involuntárias do corpo, que acontecem devido a informações enviadas pelo cérebro. E como o cérebro envia informações ao corpo? Através dos hormônios.
O trabalho, portanto, pode ser compreendido fisiologicamente como uma cadeia sutil de hormônios, que vão acionando um ao outro e conduzindo ao parto/nascimento. Quem comanda todo esse processo é a estrutura primitiva do cérebro, chamada de “sistema límbico” e composta pelo hipotálamo e hipófise. São as estruturas que temos em comum com os cérebros de todos os outros mamíferos. Durante o trabalho de parto, como em qualquer outra experiência sexual, as inibições que podem acontecer no processo provêm da outra parte do cérebro, a mais moderna, denominada córtex ou neo-córtex. Muito desenvolvida nos seres humanos, essa parte do cérebro correspondente a atividade intelectual e racional.

O obstetra Michel Odent identificou fatores que estimulam a atividade do neo-cortex, e que devem ser evitadas para permitir que o cérebro primitivo funcione sem impedimentos e assim favorecer o trabalho de parto. Essas são necessidades básicas muito simples, mas fundamental que sejam respeitadas. São elas:
LUZ: luzes fortes estimulam o neo-cortex, e isso é já bem claro aos técnicos que realizam eletro encefalogramas. Um parto que ocorre na penumbra, portanto, tende a ser facilitado.
LINGUAGEM: A linguagem racional é um processo intelectual comandado pelo neo-cortex. Portanto, perguntar à mulher durante o trabalho de parto qual é o seu número de telefone ou a que horas fez xixi, por exemplo, obriga que ela raciocine, acionando o neo-cortex e consequentemente atrapalhando a ação do cérebro primitivo e o trabalho de parto. Melhor não recorrer à linguagem verbal a uma mulher em trabalho de parto.
PRIVACIDADE: todos sabemos que quando nos sentimos observados temos a tendência de corrigir nossa postura, e isso representa acionar o neo-cortex. Quanto maior privacidade, melhor para que o trabalho de parto proceda bem. Odent inclusive chama atenção para a posição onde a parteira/ doula/ médico se encontra no momento do parto (na frente ou atrás da mulher), e para as fotografias e filmagens nesse momento.
NECESSIDADE DE SENTIR-SE AO SEGURO: A adrenalina aciona um estado de alerta que inibe a liberação dos hormônios necessários ao parto. Todas as situações em que a mulher se sente em risco liberam adrenalina vão dificultar o parto. A presença de pessoas com quem a mulher se sinta segura, portanto, é fundamental para facilitar o trabalho.
FOME E ADRENALINA: O medo faz aumentar o nível de adrenalina, mas a fome também. Depois de comer todos ficamos mais calmos. A TEMPERATURA também influencia na taxa de adrenalina: um ambiente frio tende a aumentar a taxa de adrenalina. A mulher em trabalho pode comer se sentir necessidade, e os que estão acompanhando o parto devem cuidar para que o ambiente esteja bem aquecido.
Um parto ativo será beneficiado se essas necessidades básicas da parturiente forem respeitadas.
É importante lembrar que o cérebro reconhece apenas os hormônios produzidos pelo próprio corpo. Hormônios sintéticos não produzem os mesmos efeitos, e podem atrapalhar a delicada seqüência entre eles.

O Parto Ativo


O conceito de Parto Ativo foi desenvolvido pela educadora perinatal Janet Balaskas, na Inglaterra. Parto Ativo significa que a mulher é quem faz o seu bebê nascer. Não é o médico quem faz o parto. Não é a parteira quem faz o parto. É a mulher, seu corpo, sua mente e sua alma. Claro que não existe Parto Ativo sem uma equipe que aceite neutralizar sua participação em favor do protagonismo da gestante. Portanto para um parto verdadeiramente ativo é necessário uma mulher ativa, um acompanhante (o pai do bebê ou outro por ela escolhido), um bebê e alguém que fique ao lado apenas verificando se tudo está bem, sem intervir no processo natural do nascimento.
O corpo da mulher já vem preparado para o parto, e até mesmo mulheres em coma conseguem ter partos normais. Sedentárias, ginastas, ativas, magras, gordas, altas ou magras, todas as mulheres têm a capacidade inata de permitir que o bebê viva, se desenvolva e nasça através de seu corpo. No entanto o parto é um processo dinâmico, no qual o bebê faz uma série de movimentos através da pelve, até que possa sair para a luz. Ele desce, insinua seu crânio pela bacia pélvica, dobra o pescoço, gira, colabora. Enquanto isso a mãe se move, anda, muda de posição, pende apoiada pelo companheiro, acocora, deita. Como quando tentamos tirar um anel justo do dedo, só o movimento é que permite que um deslize ao redor do outro.
Se permitimos que a mulher adote todas as posições que lhe parecem confortáveis, se possibilitamos a liberdade de movimento e ações, se o ambiente do parto for propício para essa liberdade, mãe e bebê encontrarão a fórmula para a travessia que eles têm que fazer. Por isso é fundamental que no ambiente do parto sejam oferecidos os elementos fundamentais para um parto ativo:
- Privacidade: se a mulher não tiver privacidade, ela fica tolhida em sua liberdade e deixa de se movimentar de acordo com sua vontade.
- Opções à cama: deitar é em geral a última coisa que uma mulher quer fazer em trabalho de parto, de forma que ela precisa ter opções como a bola suíça, cavalinho, banqueta de parto, almofadas, cadeira, poltrona, etc...
- Equipe: é importante que as mulheres sejam acompanhadas por pessoas que estejam acostumadas ao conceito de parto ativo, como as doulas, enfermeiras obstetras e médicos obstetras motivados e seguros em relação ao parto natural.
- Recursos não farmacológicos para a dor do parto: sendo o parto um processo lento e muitas vezes doloroso (especialmente no pico das contrações), é fundamental que a mulher possa ter à mão os recursos para lidar com essa dor, como chuveiro, banheira, bolsa de água quente, chás e o que mais for possível dentro do contexto.
- Prioridade para o parto natural: para que a mulher se sinta no controle da situação, ela precisa vivenciar o processo da forma como a natureza propôs, ou seja, sem o artifício do jejum, da ruptura artificial da bolsa das águas, do uso de soro com hormônio (ocitocina), forças dirigidas, etc...
Dentro dessa filosofia de atenção ao parto, os procedimentos médicos são destinados apenas às situações especiais, que não deveriam superar uma pequena porcentagem do total de mulheres saudáveis. O parto sempre será um processo normal e natural, para o qual as mulheres continuam estando preparadas, independente de não lavarem mais roupas à beira do rio acocoradas. Basta que deixemos as grávidas em paz e que lhes ofereçamos o mínimo necessário para o conforto, e elas saberão o que fazer.
Se você está grávida e deseja ter um Parto Ativo, leia, pesquise, pergunte, questione seu médico, questione a maternidade onde vai ter seu bebê, faça um plano de parto, procure um grupo de apoio, faça seu acompanhante entender a importância desse processo para você e seu bebê. Não entregue o seu corpo, seu bebê e seu parto nas mãos de outros. Eles lhe pertencem.